Do difuso e do focado, do sol e do farol

O místico entende-se como uma produção da natureza; uma realização cósmica, como o leito de um rio, o recorte de uma costa rochosa, um estalagmite – essas colunas de calcário que se erigem no solo de uma gruta em função do longo gotejamentos das águas, das reações químicas
entre os elementos contidos nos minerais, na água, no ar; do efeito da temperatura dos ambientes e das forças essenciais – como a gravidade, o magnetismo, as reações atômicas e moleculares. Advinha-se a sagacidade dos anciãos evocando os elementos como terra, água, ar e fogo. É fácil imaginar cada pingo d’água como uma molécula primordial; um conjunto de
gotas formando uma célula; as formações esculturais da rocha, órgãos: a realização dessa totalidade, um estado-de-ser que evolui e se eleva até tocar o teto formando um pilar estalagmítico – um místico estatelado e espantado tocando o céu com a consciência própria.

O místico compreende não ser diverso da natureza que o contém, que a natureza se expande em formações sempre mais amplas, num contínuo universal homogêneo: ele sabe. Ele conhece
porque experimentou, ao longo da sua história, que a evolução progressiva da consciência, de celular a orgânica, pertence a esse sistema como o perfume e a beleza das flores integram e coroam o âmbito e a complexidade das relações. Tudo é um que se dissolve em fronteiras infinitas em todos os azimutes. Om shanti, shanti, shanti om.

O distraído, diversamente, por carência de perspectivas profundas, não enxerga como um sol, na envergadura da totalidade dos raios, mas entrevê as coisas em frestas estreitas de consciência e visão: não conecta, não integra, e passa a ver como flashes de instantâneos. Ele vê aqui uma pedra, lá um coelho, em cima um sabiá e além, um céu radicalmente diverso do plano horizontal. Ele não reconhece, como as águias, que o azul e branco do mar é azul e branco do céu. Ingênuo, ele passeia no mundo, no mar e no céu, como se fosse um farol isolado numa pedra rochosa: olha isso, vê aquilo! Devem ter universos muito estranhos e diversos de mim além desses negrumes distantes! Ele não se compreende, tampouco se reconhece como um
místico.

Farol acusa Esclarecido de ‘antropocêntrico’! Rindo, o místico responde que seria mas acertado acusá-lo de abóbada antropocircunferencial! Que de fato ele, Farol, é o ‘antropocêntrico’ que gira focando em torno de si para ver pouco, fala com as próprias visões como se fosse alienígenas, confundindo coisas com representações, achando-se caído de outro astral, ou
assentado nos arquibancos da arena universal, como um prefeito em seu gabinete! – “Pois se sou focado e rochoso, tu és difuso, totalmente calcário, meu caro!”. E assim continuam se alfinetando, rindo um do outro.

Tenho denominado essa perspectiva incompleta, focal e dicotômica, de eixo de perspectiva metafísica transcendente-transcendental e a perspectiva unitária e difusa de eixo perspectiva metafísica cosmo-existencial. O primeiro caso reporta aos aprofundamentos filosóficos típicos do kantismo onde o pensador, iniciado nessa postura de ‘ente separado do todo’, conecta a luz da consciência com as coisas se questionando: mas e além da minha luz, existirá uma ‘coisaem-si’ misteriosa, radicalmente inacessível, outra? Ele responde:

– “Pressuponho que sim, caso contrário tudo estaria no aro da minha consciência, tudo seria ‘maya’, ilusório. Não pode ser, existe, sim, uma coisa-em-si. Aliás, uma suposição cujo fundamento encontra-se corroborado na tradição e na visão comum. O mundo foi criado por um deus que não é do mundo, tão misterioso para nós quanto essa ‘coisa-em-si’ que existe fora
do alcance funcional e necessário da percepção. O mundo se descobre, avançando passo a passo, revelando novidades insuspeitadas, descortinando outros espaços, não se-trata de construções radicais. A existência não pode ser algo como uma ‘categoria aberta do sujeito’, a natureza e seus princípios não pode servir de base para a formação de uma ética naturalmente decorrente: a inteligência obriga a reconhecer, imperativamente, a necessidade de obedecer a
uma norma criada, pressupondo a necessidade do amor, de acordo com a lei divina e revelada”.

No caso da perspectiva cosmo-existencial, reporta aos entendimentos de diversos poetas e místicos; em filosofia, notadamente, Espinosa, os pré-socráticos e, possivelmente, Sócrates reportado por Platão, quando, em 246 dc, o ateniense afirma:

“O início é algo que não se formou, sendo evidente que tudo o que se forma, forma-se de um
princípio. Este princípio de nada proveio, pois que se proviesse de uma outra coisa não seria
princípio. Sendo o princípio coisa que não se formou, deve ser também, evidentemente, coisa
que não pode ser destruída. (…) Quanto à denominação de imortal, isto é algo que não podemos
exprimir de uma maneira racional. Nós conjeturamos, sem disso termos experiência alguma
nem a suficiente clareza, que um ser imortal seria a combinação de uma alma e de um corpo que
se unem para toda a eternidade”.

Na perspectiva cosmo-existencial não há dicotomia rigorosa entre o que é do âmbito da consciência e do mundo: estabelecessem-se relações fenomênicas, como atributos unidos,chave e fechadura. A consciência é necessariamente de alguém, e algo, para se apresentar no
plano existencial, aflora na consciência de uma forma ou de outra. O posicionamento é fronteiriço: a totalidade dos existentes fronteiram relações complexas e determinantes na
realização do processo criativo. Imagina-se uma membrana molecular formando-se em algum meio, eventualmente, dobrando sobre si, criando um espaço interior: não faz pleno sentido postular uma ‘radical distinção entre o lado de fora e o de dentro’, não há dois espaços do ponto de vista original, ontológico: trata-se de uma unidade recondicionada pela forma configurada. A estrutura membranosa evocada estabelece distinções, relações e destinos, tanto quanto os demais seres criados, sem por isso originar lugares estranhos, radicalmente diversos:
os dois lados não configuram entidades opositivas e divergentes, a não ser nas interpretações e normas de modelos e narrativas. O justo entendimento desconstrói questionamentos relativos ao solipsismo e à ideia do mundo ilusória, maya, como se referissem a realidades absolutas, ontológicas; são apenas modelos ou modos de compreender, sendo o modo cosmo-existencial mais extenso, sóbrio e profundo – no momento, integrando melhor o que se sabe, logo mais verdadeiro. Nessa postura, o pensador entende-se integrado a tudo quanto existe e possa vir-aser,
estabelecendo relações, descortinando aspectos do fluxo desse fenômeno radical.

Trata-se de um fundamento metafísico corroborado na tradição e visão panteísta, onde o cosmos entende-se como fenômeno autopoiético. O ‘deus criador’ é o próprio Cosmos, incluindo todos os seres em enlaces misteriosos, universo cujo potencial em nada desmerece os valores atribuídos ao deus sobrenatural dos teístas salvacionistas que consideram a vida uma
purgação, um introito para um mundo incriado de ‘energia pura’, sem matéria alguma. A visão panteísta, apesar da modernidade do termo, reporta-se a muitas formas antigas de reverenciar
a natureza. O mundo se descobre como o infante descobre os próprios potenciais, o bebê o corpo, o homem sábio entende a terra como uma mãe e o sol como um pai. A mim parece que a existência é categoria aberta do sujeito que sempre existira, de uma forma ou de outra. Para bem se dirigir e orientar nas coisas da vida, entender que somos uno dispensa a necessidade imperativa de normas elaboradas em escrituras: a verdade grita no presente, na imaginação e historicidade que transmuta sem deixar de se afirmar, até mesmo quando observo um céu de estrelas que brilham num passado presente, lembrando imagens e ideias cujo surgimento não sei locar no tempo – memória ancestral.

 

Ensaio Essencialista 05 – Educando o Essencial

EDUCANDO O ESSENCIAL

Um dos grandes pecados da escola é desconsiderar tudo com que a criança chega a ela. A escola decreta que antes dela não há nada – Paulo Freire

O que se conhece primeiro, serve de metáfora para o que vem depois – Régis Alain Barbier

1. QUADRO DE AVISO

Nesse intento de compreensão sistêmica da educação a partir da razão filosófica, não esmiúço assuntos técnicos, como o estudo das abordagens educativas relativas às faixas etárias; tampouco, debato a necessidade de se fornecer conteúdos específicos em cada fase dos processos pedagógicos.
Como um arquiteto, concentro o meu discurso nas linhas existenciais eco-humanistas e fundamentais a um bom projeto educacional. A necessidade de pontuações firmes, na tentativa de demonstrar como o conservadorismo se organiza e se perpetua ao longo de um vetor de causalidade, iniciado a partir dos planos conceituais míticos e filosóficos, é proporcional ao descomedimento
filocrático1 da sociedade. Embora educadores excepcionais promovam modelos humanistas – ecohumanistas – de educação, as grades de ensino, os currículos estatais, continuam distantes do que deveriam: a pétrea pirâmide societária permanece, como um núcleo estável e impositivo, apesar de
nóxia e anacrônica. Comparo a situação societária atual, global e geral, notoriamente geradora de desassossego, injustiça e abuso, corrupta, à mutação patológica de um estado potencial de boa saúde comunitária. Essa mutação ou situação patológica é crônica, com agudização recorrente. Defino o
estado de boa saúde social como uma polis comunitária, libertária, dialógica e eco-humanista, como uma tribo de amigos: não se trata de um idealismo, mas da evocação modelar de uma situação adequada, fazendo jus aos potenciais sapientes da humanidade, geralmente apregoados, considerados notórios: uma organização social, delineada algumas vezes ao longo da história, onde,
por definição, predomina o respeito às intenções sinceras, aos cuidados específicos no sentido de prezar a vida, a natureza. Do ponto de vista habitacional, neste estado de saúde social, não há tumores urbanos, ácidos e caóticos; não existem áreas extensas de carências e desencontros, escassez celular e fibrose – “as casas iam rareando, modestas casas espalhadas sem simetria e ilhadas em vastos terrenos baldios”; (Lígia Fagundes Teles, Histórias do Desencontro, p. 83) – não
existem prédios como carceragens suspensas, penhascos na beira de abismos de solidão e isolamento. Cada casa é um canteiro no jardim; cada praça, uma fonte. O teatro central dos debates sociais é um salão comum e aberto a todos os poetas e filósofos. Não prevalecem reações autoimunes, violentas, não há autoanticorpos, bandidos, contra autoantígenos, parentes; as pessoas não se comunicam como máquinas insensíveis; obtêm alimento em hortas, não em supermercados
com clima de néon e ar frio enlatado.

2. DA INEFICIÊNCIA DAS FILOSOFIAS SUBSERVIENTES

A Filosofia da Educação representa a aplicação do pensamento filosófico aos processos educativos. Uma aplicação passiva de orientações, objetivos, abrangências e direcionamentos diversos na geração de conceituações: 1) orientada em direção ao entendimento dos processos educativos
atuantes no próprio contexto sociocultural gerador do estudo, uma busca homocêntrica; ou, 2) investigando métodos educacionais de outras culturas, uma busca excêntrica, nos moldes da antropologia. Tais buscas acontecem de acordo com o entendimento filosófico operante e peculiar dos pesquisadores: o filósofo educador, necessariamente, tende a definir o que é educar em relação à
natureza da sua própria educação, em uma escala de valores, do que apreendeu; pressupõe-se que as investigações de outras culturas sejam aptas a evidenciarem pontos contrastantes, áreas divergentes, abrindo espaços para renovadas interpretações ou modelos – contudo, pré-juízos, de alguma forma
limitantes, são esperados, quase inevitáveis 2. Uma investigação filosófica da educação, incidindo acriticamente sobre a sua própria esfera formativa, âmbito cultural de origem, com frequência, não passa de um enaltecimento da própria cultura, uma apologia: estudiosos encomiastas,
comprometidos em cargos funcionais, geram uma filosofia da educação eminentemente conservadora, senão presunçosa. Para obtenção de resultados rigorosos e satisfatórios, seria necessário que os investigadores fossem isentos de sectarismos, libertos de afiliações e militâncias, capazes de deslocamentos cognitivos transcivilizacionais, conhecedores das definições profundas,
filosóficas, relativas aos conceitos de educação vigentes em outras culturas e civilizações, fundadas a partir de estruturas míticas e perspectivas metafísicas diversas. Para a obtenção de resultados e compreensões operativas abrangentes, universais, para observar, comparar, experimentar a tudo o que se refere a essa atividade de transmissão e criação cultural, educar, uma máxima flexibilidade e lisura são fundamentais. Um intento teórico, orientado em busca de esclarecimentos ponderados e isentos, versando sobre a filosofia da educação, implica incluir a si mesmo, com consciência, ao iniciar o processo de entendimento filosófico: conhecer-se como fenômeno conhecedor, historicamente nutrido de compreensões mediadas pela cultura, e, de conhecimentos imediatos resultantes da experiência vital. Apenas garante a universalidade do estudo a contemplação lúcida do estado-de-ser humano, seus fundamentos, sua essência, no intuito de defrontar as necessidades existenciais basilares, atinentes à condição humana genérica, como experimentada e conferida à luz do bom senso, com sobriedade, levando em consideração, na análise, as aferências teóricas oriundas dos princípios filosóficos gerais, reconhecidos sensatos, decantados e louvados em estruturas
culturais e civilizatórias, de tradição humanista e orientação racional.

Iniciamos pelo caminho mais sóbrio, direto e mais econômico: uma busca a partir de si, busca filosófica por excelência. Assumo o âmbito civilizacional vigente, hoje global, como gerador de uma estrutura e métodos educacionais instrumentados como expressões conservadoras, de reforço; tal articulação ideológica é o ponto inicial e de procedência a partir de onde se afirma essa dissertação. Iniciando pela observação, descrição e contemplação, despontam questionamentos ligados aos métodos de ensino: os métodos são centralmente implicados no ato de educar; a ideologia estrutura métodos que condicionam as diretrizes educativas, filtrando e reduzindo aquilo que se transmite. A ideologia vigente desconhece o bom senso que assinala a complexidade e inefabilidade estruturante do estado-de-ser, em favor de um reducionismo abusivo concretizado na
tentativa de se aplicar o método positivo-científico para a investigação e regência de uma ordem de fenômenos não quantificáveis: a totalidade do estudo da ação humana no contexto social – como na sociologia aplicada, psicologia social, pedagogia e economia. A experiência humana não é: 1) idealista, redutível a alguma entidade de ordem subjetiva, nem 2) positiva, redutível a objetos materiais, tampouco, 3) ‘realidade’ entendida como uma relação cristalizada entre estas duas
hipóteses, de fato incognoscíveis, i.e., de um lado o ‘ideal’, do outro o ‘objetivo’, ou positivo: a experiência humana é um fenômeno, uma unidade viva, analiticamente incognoscível, inefável e imponderável na sua essência. Ser ciente de si configura um conhecimento direto, imediato e auto conferido, portanto não convencional, não se tratando, tampouco, de uma observação científica implicando neutralidade da parte do observador, resultados provisionais

3. O ser humano agemotivado por escolhas inscritas em atos e causalidades indetermináveis, em termos de qualidades e quantidades: uma criatividade avessa à categorização. Escolhas insondáveis nas suas profundezas
determinadoras; mas, não por inatismo sobrenaturalista – algo como um “livre arbítrio” – e, sim, devido a uma imensa complexidade: o surgimento da capacidade de escolher como fenômeno intrínseco à complexidade e autoconsciência. A atitude cientificista, ensaiando delimitar os processos educacionais embasando a análise em dados pré-definidos, implica a negação da insondável e ímpar criatividade humana, o desrespeito à natureza primordial e única do estado-deser.
O educador, seguidor de tal orientação metodológica, coloca-se numa situação ilógica: a premissa reducionista não garante uma antecedência predicativa maior, a não ser que o educador positivista se enxergue como espécie diversa, um super sujeito dotado de uma inteligência fundante e superior – o ato da redução racionalista como ato supremo de inteligência. A abordagem cientificista, normativa, exclusa, por redução, do âmbito cognitivo pleno da razão natural e inteligência das interações, implica: 1) empobrecimento por diminuição da diversidade; 2) redução dos potenciais e iniciativas a um nível consensual estatístico médio; e, do ponto de vista das
aplicações; 3) acentuação e possível generalização da amplitude e intensidade de atos educativos elitistas e selecionados, uma forte tendência para o fortalecimento de uma ação educacional massificada, objetivista e rústica. Esquemas educacionais alienados e alienantes, propensos a induzir desinteresse, empobrecimento dos valores, talentos individuais, diversidade e criatividade. Efeitos reforçando o desenho societário vigente, a manutenção conservadora, homogênea, dos esquemas
societários filocráticos já implantados, o status quo. Caso se entenda por educação o que de fato significa, um processo desenvolvente e criativo, a renovação e transmissão cultural através do diálogo, compartilhamento, do ‘e’ ‘ducere’, lucidez irradiada a partir de si mesmo, maiêutica: tornase evidente não ser possível algo como uma “educação estatal” ou uma “educação teológica sectária”. A dita educação de estados ou igrejas se caracteriza como instrumento teórico, confirmador do enquadramento geopolítico de indivíduos, com eficiência e intensidade proporcional e relativo ao PIB; um processo orientado na implantação e cultivo, através de ministérios específicos, burocratas, funcionários associados, intenções, finalidades e elitismos pré-definidos em concílios ou conselhos fechados.

O ato educador só pode emanar de uma relação de admiração frente à insondável criatividade e originalidade humana; de respeito à natureza integrativa e sempre renovada do estado-de-ser; de um método valorizando e fortalecendo a capacidade de escolha do aluno – escolha entendida como fenômeno intrínseco à complexidade e à autoconsciência. O ato educador, sensato, tem como objetivo, a partir do início da relação, reconhecer o que cada um pode ensinar ao outro, os talentos
peculiares e singulares. Não ilustrando, e comprovando, nos seus fundamentos, essa natureza dialógica espontânea, fluida; o ato dito educativo, não é educador, mas simples demonstração e manifestação de prepotência e autoritarismo.

3. DOS PRÉ-JUÍZOS INQUIETANDO E SITIANDO OS HORIZONTES PEDAGÓGICOS

A saga infantil elabora-se por toda a vida, seja permanecendo nos limites balizados pela cultura e estrutura socioeconômica, ou, divergindo: aqueles que se expressam, poetas, filósofos e artistas, elaboram esta experiência. O círculo espiralando dos cromossomos às galáxias, chegando aos pensamentos, vem e vai, a partir do mesmo negrume de inefabilidade, gerando espanto e dúvidas.
Profundo ceticismo, a partir de onde, a razão, integrando em sincronia os esboços mnemônicos e os da imaginação, desenha significados e coerências, tal qual ao perceber as figuras criadas pelo sistema de integração visual, extraindo padrões, observando texturas e formas aleatórias nas paredes, no chão, na grama ou nas nuvens. O indivíduo pode, ao menos em parte, ampliar ou mudar
os potenciais evocados na infância, para plantar e cultivar o que bem desejar, todos os sentidos e perspectivas existenciais possíveis: zênite, nadir ou globo universal – o que não se refaz, se supera e reinventa. Muitos acompanham as normas, acentuam os traços da catedral societária, invocam a grandeza dos representantes de ideais, ou hipóteses, vislumbram personagens infinitamente supremos onde outros só enxergam negrumes misteriosos. Outros, mais orbi de que urbi, deixam aos césares, reais e míticos, o que lhe referem, sem ingerência: compreendem as esferas naturais, geometrias orbitando no vazio, como força e matéria divinais.

As diligências culturais, os aspectos específicos da cultura e as providências comunitárias, os dados da experiência vivencial definem, com intensidade, categorias existenciais e fundadoras: marcas batismais, aplicadas na infância por intermédio de parentes, imediatos transmissores de usos e costumes, ou por agentes culturais, sacerdotes ou educadores, políticos, a serviço das culturas.
Cogitans, atributos culturais mais abstratos, ligados aos domínios míticos regendo religiosidades, e naturans, modelos de relações relativas ao ambiente, ao habitat, à vida familiar, originam dois declives coligados, mas diversos. Motivo bivalente promovendo aliagens, seja com acentuação da esfera estável e genésica, familiar e comunitária, ou intensificação dos reflexos e relações societárias, das sombras mutantes no fundo da caverna mítica evocadas por Sócrates, narradas por Platão. O modelo comunitário e familiar poderá ser: orbi, naturalmente inserido e contextualizado, assentado num habitat típico, em sintonia com o ethos eco-humanista; ou, urbi, uma vivência mais artificial, burguesa 4, dissociada dos enraizamentos relativos ao ethos original, posições instrumentadas em escalas classistas relativas a privilégios, capacidades funcionais e produtivas. O modelo cultural poderá ser gerador de práticas sacramentais e dimensões espiritualistas, com frequências antipódicas: estruturas normativas, regidas por representantes hierarquizados, instalados em igrejas, evocando domínios imaginados sobrenaturais, mediando rogações; ou ritos mais naturalistas, proporcionando encontros frontais e espontâneos com a natureza, reconhecida sagrada, todos os seres. O vigor, integração, ou alienação, da configuração nativa, e, do outro lado, a intensidade e qualidade das normas culturais, são fatores entrelaçados na administração do destino do estado-de-ser: fenômenos envolvidos na criativa manutenção da existência, ou no seu depauperamento. Cada indivíduo se posiciona: acompanhar os determinismos infantis ou divergir; não se trata de seleções intelectualmente lógicas, escolhas racionais; essas matérias são selvagens, extracurriculares e sub-reptícias, a bifurcação a ser vencida depende de uma apreciação íntima, intuitiva, parcialmente consciente.

Apenas o ser humano dotado de intuição cognitiva madura, liberto de medos e receios pode, deveras, decidir e se posicionar frente às alotipias e graves ambivalências sitiando o núcleocivilizatório como vozes sussurrantes: – És um ser vindo de planos sobrenaturais, criatura acidentalmente, caída na matéria, em busca de resgate e redenção; ou apenas uma criatura naturalmente assentada no seu habitat, povoando a esfera planetária? És um predador universal,
como um gafanhoto migratório, ou uma entidade bem aninhada e locada no seu ethos essencial? Uma vez postas as dúvidas, hesitando, imaginam-se similia e similibus soluções, afirmadas por inúmeros agoureiros e guias, acreditadas por muitos, estabelecendo-se jogos dramáticos, indecisões sem remédios, a não ser: obedecer sem questionar, divergir ou desistir da problemática, cuidando do pão cotidiano. Impressões psíquicas aplicadas na infância emulam tendências, mas não determinam o destino. Ou o medo de deixar de ser, ou não ser, se alivia em expressões de culpas, proselitismos ou facciosismos, em esperanças ditas e reditas como missas, do alto das tribunas, garantias apocalípticas bem badaladas; ou essa angústia, toda humana, tende a serenar, se aquietar: o pavor de deixar de ser curando-se pelo pavor de sempre ser, salvando os valores reais, saboreados no decorrer dos dias, o presente infinito. Nas junções, nos enlaces dessas circunstâncias, configuram-se epopeias: trata-se, de uma decorrência radical, de raízes; o genésico, o que está na origem, e as atitudes gestam um termo. Vetores apontam para o reconhecimento consensual de interpretações sociológicas e históricas, vindos debaixo das umbrelas cognitivas dos doutos, ou então, vivazes como uma encarnação de princípios atuantes, impulsionam maioridade e liberdade. Os ditames pedagógicos das estruturas societárias superestratificadas obstam a justa compreensão da universalidade e enraizamentos cósmicos do estado-de-ser, mas não travam com força irrestrita, o seu reconhecimento, a educação encaminha um destino, não compele. As âncoras batismais ou comunitárias, suas nuanças, a natureza peculiar do estado-de-ser individualizado criança interferem
na indução do destino. Garantido, é que a vontade, a sensibilidade e criatividade da criança – e adulto, sabendo guardar em si o infante cultivando a arte de perguntar e ser curioso – sempre desafiará os rigores das pré-definições, automatismos, tradições e do logicamente decorrente.

A capacidade de ser sensível ao Belo, à vitalidade e natureza da condutividade estética – entendida como a capacidade conectiva dos que visionam os alinhamentos das sequências causais – revelando circularidade, são fatores regidos pelo grau de intensidade e presença natural da configuração nativa; círculos, girando além das perspectivas filosóficas, perfazendo unicidade. Unicidade alimentando e gestando essas perspectivas profundas e familiares, onde padrões sinérgicos despertam, para apresentarem-se na existência, realmente, balizando as confluências e o destino, entre o estado-de-ser singular e o universal, sossegando, unificando. A observação de dicotomias, o estabelecimento de distinções contrastadas e rigorosas, fracionando o todo em delimitações, números e letras, fatores regidos pela vigência e rigor da configuração cultural como habitualmente apresentada nas escolas normativas, geram dúvidas, inquietudes.

4. DAS FORMAS DE EDUCAR – EDUCAÇÃO ANUNCIATIVA E ARGUMENTATIVA

A educação societária – aqui denominada educação anunciativa – possui seletividade e desígnio específico, geradora de problemática inerente: ela é aplicada a partir de uma estrutura hierarquizada, suspensa além do que é específicamente humano, acima da razão, um pressuposto que não pode ser efetivamente contornado à luz de conceitos pedagógicos assentados em juízos filosóficos exatos e prudentes. Apesar de revestida dos argumentos da pedagogia contemporânea, a educação societária geral mantém a estrutura teleológica típica do tomismo. Para o funcionário educador da República, o conceito de humanidade é selado de acordo com as normas decantadas ao longo da epopeia histórica, ou de acordo com um dogma irracional incorporado nas igrejas oficiais ou de massa.

Abaixo desse conceito supremo e definidor, enfatizado ou pressuposto em silêncio aquiescente ou cordato, o ser humano, instalado num contexto histórico e socioeconômico definido, pode ser ‘educado para algo’, como objeto ou recurso da nação. Na esfera societária, a educação é antes de tudo um cuidado, como a atenção que o jardineiro dispensa às plantas, um zelo que se aplica com a
participação do educando, no intuito de atualizar potenciais inatos, entendidos como sementes dignas de se cultivarem. O que é julgado bom para florir é normalizado de acordo com uma deontologia: é a realização de um ideal, o cumprimento de um tratado de deveres pré-definidos –
uma pedagogia

5 . Não se trata de favorecer a germinação espontânea de uma ética, brotando livre,
florindo da natureza; há uma tutorização, restrição forte, bem supervisada, aplicada de um patamarsuperior, não se trata de uma interlocução respeitosa, encontrando riquezas e desafios nas leituras e representações criativas e genuínas, até mesmo únicas, dos educandos. Educar é formar, realizar atos dentro da pessoa com a participação ativa do educando, é uma operação pré-definida, aplicada com
a colaboração necessária, para atingir o interior; o sucesso se demonstra em atos que se conformam a uma instrumentalização: educar para x ou y. Enquanto Aristóteles fala de potência “como capacidade de comunicar ou receber algo”, a educação societária entende potenciais como a contenção de qualidades aptas a germinar ou não. Demonstrar capacidade de trocar informações,
comunicar e receber, é certamente diverso de conter um conjunto de qualidades como potenciais: no primeiro caso, caraterísticas funcionais abrem perspectivas indefinidas; no segundo caso, um inatismo genésico predetermina as formas. O poder e eficiência da boa educação estão certamente agregados a valores; mas, não são valores educacionais objetificados, instrumentados como utilidades, isso, porque um ser humano só se educa, de verdade, na esfera da liberdade e do valor
dado a si mesmo. No âmbito da organização educacional anunciativa, estatal ou celestial, a norma mais alta e suprema caracteriza-se pela ausência de razão; o fundamento é dogmático, sobrenatural, ou norma de estado: razão de estado é norma, dogma é crença. Se a razão final é um credo, educar é
preparar a aceitação do dogma e da norma, e a função magna do educador é se credenciar frente ao aluno para suscitar aderência, fé salvadora, obediência e sucesso societário.

Compreendida como intercâmbio, sistema de trocas, dialogal, a função magna do educador e da educação – aqui denominada educação argumentativa – não é essencialmente ‘cuidar’, como uma mãe, ou um jardineiro, isso já é proporcionado pela família e âmbito comunitário. Educar, em primeiro lugar, é estabelecer com o educando um contato, um relacionamento interlocutório horizontal, compartilhado, um reconhecimento mútuo de respeito e admiração, possibilitando debater assuntos à luz da experiência imediata e do saber simbólico, confiante na razão e bom senso. Entendendo-se bem posicionado no seu estado-de-ser, existencialmente adequado, exercitando a razão natural, o indivíduo descobre ser uma junção misteriosa de ser e existência, de absoluto e relativo, uma expressão de liberdade, gratuidade, naturalmente revestido da graça da criatividade manifesta. Tal realização, associada à volição, como poder de aquiescer ou negar, dizer sim ou não, faz dele um ente apto a escolher e valorar o que se dá à existência, ele, em primeiro lugar. Saudável, experimentando a adequação evolutiva e seletiva, o indivíduo tende a valorizar a experiência com virtude, alegria e coragem. A razão assentada no reconhecimento e presença imediata do estado-deser,
na consciência de si, revela um contexto existencial criativo, por isso, sujeito à impermanência.

Nesse contexto existencial, decorre sensato e bom ser fluido, tolerante, desapegado, cordato, ponderado, justo e amigo. À luz da razão natural, o H. sapiens se reconhece nas mãos da providência, mas, sujeito de si mesmo; um estado-de-ser adequado, de si mesmo sujeito e objeto, é
oportuno, propício e benigno: a adequação e bondade são naturais do ser humano que bem se reconhece e se valoriza.

A junção unitária se enraíza no estado-de-ser; o valor atribuído aos outros depende do valor atribuído a si mesmo, e, o valor próprio e real, essencial, não é alienável nem sujeito a tributação sem degenerar: existe em si, no ato mesmo de ser; fenômeno experienciado, conhecido de imediato, mas inexplicável, junção do absoluto e do relativo. O valor magno é o sentido próprio outorgado ao estado-de-ser, o melhor sentido, a melhor conduta, a mais profícua, benigna, é o diálogo, a participação, o compartilhamento; o estar juntos, aprendendo a busca do melhor entendimento e vida social. Um objetivo certamente prático, eficiente e centrado, sem equívoco e bem argumentado, respeitando o imponderável para ser merecedor de respeito. A razão lúcida, exercitada sem crenças apostas, sem mapas prévios e sem tutela, é suficiente para revelar o que é, com adequação e máximo
benefício. Evidência demonstrada nas praças de Atenas desde os primórdios: a razão virtuosa, efetiva, justa e prudente, só pode ser natural. A confiança decorre na apreciação filosófica de que o exercício livre da razão leva à percepção e realização de uma ética positiva e humana, socialmente engrandecedora. Além de instruir saberes, o educador deve corroborar na educação de um ser humano de verdade e respeito, jamais um crente no absurdo, um fiel ignorante.

Será a história destinada e determinada a frutificar em paz; ou então a permanecer um reinado de formigas; ou ainda, algo intermediário, nem isso nem aquilo; quem sabe? Estimular a criatividade, o senso crítico, a imaginação, a intuição e o senso investigativo é tornar vivo, é criar sujeito, é vivificar em busca da verdade, da compreensão imediata e plena da presença, do seu mistério e
profundo respeito. É auxiliar o outro a se pôr no lugar, ética: fazer do mundo um reino cordato de paz e confiança. Estamos vivendo em dois planos: o plano da razão natural, primeva e filogeneticamente familiar, e o da irracionalidade social e histórica, moderna e pós-moderna. Por estar envolvidos, necessariamente, em planos conceituais, é impossivel apresentar-se com postura
neutra: não se pode pensar, falar, agir e memorizar, atitudes inerentes do ser humano, sem ser influenciado por discursos; ser lançado na tensão entre o poder da verdade comunitária, assentada em bases éticas e filosóficas, ou, das ilusões societárias, assentadas em ideologias, filocracias, vontade reativa e narcísea de poder.

A filosofia é a arte da manutenção da atividade humana no plano nativo, lúcido e juvenil, da razão universal; enquanto isso, a ideologia sustenta o plano e os determinismos de ordem histórica e social. Vivendo na cidade – espaço societário essencial -, envolvido por esses planos, estamos sempre deslizando entre um e outro. Estar ciente desses lugares e planos é o começo de uma busca destinada a construir, um espaço de verdade, onde possa morar a ética, ou um espaço ilusório, à
manutenção de um reinado de aparências e fatuidades excessivas. A estratégia mais sensata, ponderada, é ir em busca de um convívio de respeito; fazer desse momento uma ordem de paz: o amor que faz nascer, é o selo, a marca por onde guiar e orientar a evolução do processo, que, desta forma, pode vir a ser mais sensato e suave. A essência da educação real é ir ao centro, dar morada ao outro no contexto do encontro, como se fosse receber a visita de um amigo: isso é dar ethos. E dar
ethos é ser ético; é fazer incidir a luz da natureza sobre o outro, receber o mistério e presença de ser humano, aqui, agora, no ato do encontro, como se fosse abraçar um familiar. Não espelhar as máscaras atribuídas, impostas, ou usadas como fardas, papéis; mas, ser um reflexo profundo, como um lago nas cordilheiras, um Titicaca refletindo um céu de estrelas, um olhar de mulher-mãe compartilhando o mais real, profundo e sensato, o mais verdadeiro que a natureza colocou em nós da mesma forma e de modo diverso.

5. DA PRÁXIS FAMILIAR E COMUNITÁRIA À SABEDORIA FILOSÓFICA
HOMENAGEM A PAULO FREIRE

Paulo Freire (1921-1997), pedagogo e filósofo brasileiro, não tomista, não positivista, não acadêmico, distuingui-se por praticar uma filosofia viva, aplicando elevada compreensão, conceitos filosóficos primordiais, no âmbito da educação. Apesar de, vulgarmente, aparentado ao marxismo, reportando à burocracia socialista, é notório que o discurso de Paulo Freire é, na sua essência, poderosamente antitético aos herarquismos e jugos dos estados6
. Trata-se de um discurso estruturado em conceitos filosóficos essencialmente fundados no pensamento da antiga tradição libertária, humanista, transitando e dialogando em busca de se assentar na comunidade, desde os jônicos antigos, infância da filosfia, até os dias atuais. Para Paulo Freire, a educação societária típica, de estado, é burlesca como um carnaval ideológico, comercial, “bancária”: impositiva, normativa e taxativa. Aplicada como depósitos numa conta destinada a render juros, a alimentar movimentos de massa, coreografias dirigidas, orquestradas e sustentadas pelos supervisores, reitores e presidentes das escolas. Uma educaçao de alunos engavetados e enquadrados, classificados em graus e séries. Trata-se de uma cumplicidade interesseira, lucrativa: treinamentos, adestramentos e enquadramentos.

Os princípios subentendidos, latentes e patentes, na exposiçao teórica freiriana relativa à filosofia da educação, referem-se a manifestações e espaços filosóficos inconfundíveis, ilustráveis com conceitos libertários lapidares, imortais, tais como (apenas ilustrando): 1) uma vida não examinada não merece ser vivida; ou vive-se de acordo com o seu próprio juízo, ou é condenado a viver de acordo com os juízos e poderes alheios; 2) o estado-de-ser, é uma confluência de dois intelectos: o sensível e o racional; a razão lógica, por si só, não é suficiente à construção de uma sabedoria adequada; 3) hábitos e tradições servem de base a partir de onde reconstruir uma fortaleza de saberes, fundamentada na verdade, à luz da razão: não são modelos ou padrões fixos exigindo eterna reprodução; 4) os critérios mais exatos e profundos enraizam no Logos, no “espírito universal” refletido em cada pessoa, simplesmente, por ser o que é, natureza humana; critérios enraizados na consciência íntima, no juízo próprio, na aplicação de métodos para bem guiar a razão, aliados a um exame bem experienciado, humano – não apenas exercitado à luz de ideais e normatizaçoes.

Para Freire, a função magna do educador não é essencialmente cuidar como uma mãe ou um bom deus, como o fazem educadores inspirados por determinismos religiosos – tal cuidado, sendo o caso, não é específico, já é proporcionado, ou deve sê-lo, pela família e comunidade. Educar é, em primeiro lugar, estabelecer com o educando um contato, um relacionamento interlocutório horizontal, compartilhado, de respeito e admiração mútua; em segundo lugar, confiante na razão, é debater assuntos à luz da experiência imediata e do saber simbólico. A confiança decorre na apreciação filosófica, em que o exercício livre e criativo da razão leva à percepção e realização de uma ética natural, positiva, humana, desejável e socialmente engrandecedora. Em Freire, além de instruir saberes, se educa o ser humano, de verdade, com respeito, não, necessariamente, à procura de praticantes ou eleitores fiéis. Freire escolhe não trazer pautas pré-estabelecidas, dando valor a si mesmo, respeitando-se, e ao outro, como ser humano criativo, aberto ao diálogo, à participação e ao compartilhamento, aprendendo juntos, em busca de um melhor entendimento e vida social: um objetivo certamente prático e eficiente, centrado, adequado à instalação e manutenção de uma vida eco-humanista, filosoficamente apropriada. Nisso reside o seu mais alto e admirável valor: a essência do método, a ideia, que não é estranha aos filósofos: é a alma da filosofia jônica, grega, arcaica, pagã, campestre, pré-zoroástrica, indígena e tribal, perenal, comunitária. É um antídoto curativo ao que se faz, prega e arquiteta nas sociedades superestratificadas e conquistadas. Trata-se de um intento educativo criativo, filosófico, na tradição de Buda, que sai do seu castelo; na tradição socrática que maieuticamente extrai do vizinho verdades mais profundas, assentadas em posturas contemplativas e silenciosas, juvenis e criativas, frente à grandeza da natureza onde mais vale o amor e o respeito de que todas as certezas. Uma abordagem inscrita na tradição do hilemorfismo aristotélico, na tradição unitária de Espinosa, no impulso vivo e ativo da elevada autoestima de Nietzsche; Gandhi, e tantos outros, assentados numa firme tradição não violenta e fraterna: refletindo partes essenciais da ética; encontrando aplicações filosóficas verdadeiras, adequadas aos seus momentos e afazeres.

Aplicada a um método específico de alfabetização, a filosofia educativa freiriana nada perde da sua orientação e vigor, torna-se mais depurada, explícita, essencial, um método efetivo e simples como uma árvore: raízes, tronco e dois galhos grandes, desdobrados em inúmeros ramos. Para Paulo Freire, alfabetizar não pode se restringir aos processos de codificação e decodificação. Dessa forma, a alfabetização de adultos promove: a compreensão do mundo e o conhecimento da realidade social – as raízes; a conscientização acerca dos problemas cotidianos – o tronco; a leitura/interpretação, veículo de contato e comunicaçao; a escrita, meio ativo de contribuiçao e integração criativa – os dois ramos principais dessa árvore freiriana do conhecimento. A Etapa de Investigação configura uma busca conjunta, entre professores e alunos, dos vocabulários, palavras, temas e conceitos mais significativos e usados na comunidade – respeitando o linguajar típico. Levanta-se o universo vocabular do grupo, através de interações, aproximação e conhecimento mútuo, conversas informais, participativas. Depois de construído, o universo gerador é apresentado, na Etapa de Tematização, em cartazes e imagens, onde as palavras são identificadas e conhecidas como símbolos gráficos a serem estudados através da divisão silábica – semelhantemente ao método tradicional: criando fichas de palavras para a decomposição das famílias fonéticas correspondentes. O passo subsequente consta da formação, e eventual descobrimento, de novas palavras, usando as famílias silábicas já conhecidas. Simultaneamente, ocorre a tomada de consciência, através da análise dos significados sociais, temas e palavras: esboça-se a criação de roteiros para os debates, os quais deverão servir como subsídios, sem seguir uma prescrição rígida. Nos círculos de cultura, na Etapa de Problematização, inicia-se uma discussão no intuito de significar os termos, na realidade do grupo de estudo. Busca-se recriar situações existenciais caraterísticas do grupo, inseridas na realidade local e fundante, devendo ser discutidas com o intuito de abrir perspectivas conscientes sobre os problemas (locais, regionais e nacionais): uma postura conscientizada. Os alunos são desafiados e inspirados a superar a visão mágica, ideológica e idealista do mundo, caminhando de uma cultura intransitiva para uma cultura transitiva, crítica e ética.

6. O IMO ESSENCIAL DE UMA FILOSOFIA EDUCATIVA UNIVERSAL

Se a Filosofia da Educação representa, deveras, a aplicação do pensamento filosófico, por excelência, aos processos educativos, em busca de esclarecimentos ponderados e isentos, implica, ao iniciar o processo do entendimento filosófico, conhecer-se como fenômeno conhecedor, historicamente nutrido de conhecimentos imediatos resultantes da experiência vital, antes das compreensões mediadas pela cultura. Apenas a contemplação fenomenológica lúcida do estado-deser, no que tem de essencial, considerando as condições e necessidades existenciais basilares atinentes à condição humana, como experimentada e conferida à luz do bom senso, com sobriedade, garante a universalidade do estudo, a qualidade filosófica fundamental da busca. O ato educador só pode emanar de uma relação de admiração e respeito, frente à insondável criatividade e originalidade humana, de apreço à natureza integrativa e sempre renovada do estado-de-ser, de um método valorizando e fortalecendo, antes de tudo, a capacidade de escolha do aluno – escolha entendida como fenômeno intrínseco à complexidade e autoconsciência. O ato educador sensato, isento de sectarismos, liberto de afiliações e militâncias, leva em consideração, na análise, as ferências teóricas oriundas dos princípios filosóficos decantados e louvados em estruturas culturais
e civilizatórias de tradição humanistas e libertárias, em sintonia com a máxima expressão e engrandecimento do estado-de-ser. Para que seja possível, adequadamente, observar, comparar, experimentar tudo a que se refere essa atividade de transmissão, compartilhamento e criação cultural que é educar, máxima flexibilidade, criatividade e lisura, são fundamentais. Exige-se, desde o início da relação, reconhecer o que cada um pode ensinar ao outro, os talentos peculiares e singulares, na busca de resultados e compreensões universais.

O H. sapiens não se humaniza sem uma forte transmissão cultural de saberes, sendo o saber mais fundamental: ter a oportunidade de aprender a reconhecer-se como é, não como uma escola, ou alguém, gostaria que ele fosse; ser respeitado na sua individualidade e criatividade, provido de liberdade cultural para trilhar novos caminhos, gerar formas imprevisíveis de cultura a partir do que se recebe da tradição. Realizar-se implica reconhecer-se como existencialmente adequado, livre de finalismos, utilitários ou teleológicos: um estado-de-ser vanguardista em harmonia material, energética e histórica com o seu meio, fenômeno atestado pelo simples fato de predominar como espécie, de existir. Progredir em busca de autodeterminação, ser responsável por si mesmo, ciente da sua natureza, das suas atitudes, comportamentos, sentimentos, pensamentos, em contato com os seus talentos únicos, singulares, exige receber e beneficiar-se de uma atenção peculiar, individualizada, além de um mero aconselhamento geral ou currículo mínimo. Uma profunda integração, congruente e confiante, torna-se possível ao desfrutar de uma receptividade e escuta atentas, tendo oportunidade de expor suas dúvidas, percepções e intuições. Estimular a expressão, definição do pensamento, das ideias, compartilhar entendimentos, elaborar juntos: é o método fundamental para se construir planos conceituais, filosóficos e educativos, renovados: superar os influxos ideológicos, a massificação e atomização, em busca de uma sociedade humana aberta, criativa e genuína.

A ética exige clareza, o ser humano apresentado a todos os pontos de vista, todas as formas de se conduzir como indivíduo, povo, tribo ou nação: a ética exige liberdade para escolher a organização à qual se afiliar, pelo tempo que quiser, que achar bom, proveitoso, criativo, enriquecedor. Haveria ensino mais essencial do que reconhecer no outro a casa universal onde reside a moral, a ética; apresentar-se como inquilino honesto e sincero da mesma casa; reconhecer-se eterno lugar de expressão criativa, respeito, abertura e amor; ser honesto na sua própria dimensão de ser? O dever do educador fiel, honesto, é apenas afirmar o que de fato conhece, apresentar mitos como mitos, lendas como lendas, suposições como suposições, dúvidas como dúvidas, crenças como crenças, verdades como verdades, conhecimentos como conhecimentos, nada ocultar. Apresentar-se como formador de opinião, contador de histórias a serviço de uma seita, tradição, porta-voz de um grupo ou nação, de uma associação, não é educar para ser humano; mas, ser sócio, associado, sectário, partidário: é condicionar e implantar no ouvinte as raízes do fanatismo. Cada qual nasce depositante creditado de bilhões de anos de experiências cósmicas, e, buscando, cada um poderá se conectar com a herança de muitos povos e nações, com a sabedoria de muitos filósofos; confrontando-se com escolhas das mais importantes: decidir ir além das suas tradições, superar e enriquecer o que foi dado e aprendido como se fosse por osmose, ou não; ser portador de um archote de luz viva e nova, essencialmente humana, ou então, ser veículo passivo de imagens e representações desenhadas por outros, em outros tempos, com outras palavras, outras classificações, resservir antigos planos conceituais, desadaptados, frios e desencarnados, como efluxos vetustos de outras épocas e tempos. A essência vital dos saberes práticos não é o seu conteúdo; mas, sim, o modo como se originaram no contexto triplo: necessidade, momento histórico e entendimento disponível. Essa interação observada, criticada e comentada, permite atualizar a capacidade de rever e repensar os saberes, ademais, de aprendê-los e fazer bom uso.

Educar não é podar ou treinar para um fim apontado, determinações consensuais, políticas – isso seria ‘inducar’ -, educar é germinar e alimentar o que vem de si, é ensinar um começo, um princípio, auxiliando o aluno a entrar em contato consigo mesmo, com a sua origem e natureza, com o mistério do estado-de-ser, força ativa, inteligente e sensível, experimentadora. Educar é evocar uma curiosidade aberta, disposta a desafiar todos os conceitos em terreno de igualdade, respeito, amizade e confiança: a confiança de ser portador de uma herança energética infinita, empática e simpática ao cosmos, universal; receptor e transmissor de uma cultura filosófica a atualizar e burilar: uma cultura necessitando ser reconstruída a cada nascimento, em cada sopro de vida. Educar é ensinar a habilidade suprema: ser humano, simplesmente; criatura universal, filho(a) do sol, das estrelas, do dia e da noite, do espaço-tempo, natureza. Humano é ser capaz de reconhecer em si todos os potenciais para paz, alegria criativa, ou para a guerra, o fundamentalismo mais sisudo e rígido: i.e., bem ser, ou mal ser; mas, capaz de escolher ser bom, porque ciente e apto a reconhecer e entender que ser bom é bom, que procurar ser feliz, eutímico, é o melhor estado qualitativo de ser possível num mundo onde tudo se transforma, refaz e recria, onde tudo surge para se dissolver e ressurgir, de outras formas, na imensa arquitetura, em movimentos criativos acontecendo em coordenadas e compassos além do entendimento possível a uma simples parte do conjunto.

O enquadramento adequado à aprendizagem de ser humano é o círculo aberto: no arranjo circular, não se pode colocar gente em excesso, massificar, diametralmente afastando integrantes tendentes a se tornar inaudíveis, menos visíveis. No círculo público, todos são iguais, sabedores de que compartilham os mesmos ciclos vitais, a mesma origem e destino, a mesma natureza: na estrutura circular, a vida é apreciada como se apresenta, inteiramente, nas proporções adequadas, na geometria universal das esferas. O mundo é um círculo aberto, de limites indefinidos, possivelmente infinitos, o horizonte contextual, igualmente: ocasionalmente, não se distingue se a experiência vem antes dos conceitos ou se os conceitos determinam a experiência. A dialógica gera inúmeras vias, revela infinitos potenciais, descortina uma inteligência imprevisível, jamais um caminho já traçado, para sempre: ela é criativa, resulta em saberes que se potencializam, ampliam e se aperfeiçoam como elaborados por gênios – o gênio que somos em conjunto, reconhecendo cada um como criatura genial. Todos são portadores da mesma complexidade, forjada na mesma universal herança e duração: todos merecem o mesmo profundo respeito, o direito de compartilhar o que é igualmente dado pela natureza onde o sol brilha para todos, onde a terra não é de ninguém, mas tudo possui, reabsorve e recolhe. O diálogo não revela, como através de uma força oculta, uma via privilegiada, alheia, repleta de conceitos fantásticos, impossíveis de proceder naturalmente, de se contextualizar e frutificar no plano onde se aplicam. A dialógica revela uma complexidade impossível de ser dominada, mitificada, corrompida, por um grupo coligado, uma seita, um único elemento: é a via da clareza e da virtude, o meio onde fazer valer e canalizar os saberes múltiplos e diversos de uma multidão de contribuintes individuais, testemunhas do real, impossíveis serem corrompidos 7: a corrupção resulta do secretismo, círculos fechados, instalados no topo das pirâmides exclusivas das ditas democracias contemporâneas, necessitando serem reconstruídas em reformas radicais.

O bom educador sabe que se aprende ensinando: a escuta criativa do aluno e as suas respostas imprevistas atestam ensinos vivos, abertos, verdadeiros, em harmonia com a força criativa e renovadora do sistema universal. Ser natureza é reconhecer-se sem fantasias redutoras, aceitar-se com gratidão, livre de imperativos imaginados e rígidos, aberto a mudanças; reconhecendo antes de tudo os limites da racionalidade, da essencialidade do conhecimento imediato, construindo e presenteando pelo ato simples de ser no mundo, do mundo, de pertencer por inteiro à natureza, como se percebe, mas, reconhecida inalcançável na sua grandeza e majestade. Nesse lugar, passagem entre dois infinitos distantes, passado e futuro, graça configurando possibilidade de destino, opções e escolhas, onde, por fim, nossos corpos e cinzas hão de alimentar os seres que nos nutrem: ser virtuoso, prudente, comedido, modesto, corajoso, justo, temperado e amoroso, é ser inteligente. Bem educar é escutar, ser atento ao outro, essencialmente: para isso, é necessário reduzir o que aparta a comunidade e natureza humana, principalmente, o nível dos projetos, das relações e da organização: na contemplação filosófica; na esfera econômica; na esfera política: um fundamento mítico, funcional e humanista, não deve separar o cosmos em plano divino e plano humano, mas reunir os planos, respeitando o mistério como acontecia na Jônia, antes do advento do zoroastrismo. Numa sociedade, onde predomina o mito separatista, um elitismo ou apartheid fundamental, segundo o qual, de um lado, as almas e os espíritos detenham o poder, a luz e a força, e do outro a matéria, os corpos, a carne, o denso e o opaco estarão separados, em frequência inferior, segregados em baixo, no escuro, tateando em busca de uma orientação, direção e destino, apenas advindo da clarabóia de cima: a vitalidade é refreada, reprimida e contida, em favor de um gerenciamento monopolista, piramidal, que sangra e destrói a existência, empobrece, ao ponto de miséria, a experiência existencial, semeando escassez e desordem. Apenas a elevação natural da autoestima existencial ou essencial, poderá gerar uma miríade de comunidade, assentadas na escala humana, onde o poder decisório de cada um seja igualmente considerado: paradoxalmente atomizando o poder para que ele seja uno na essência e no ethos onde radicalmente se assenta.

Bibliografia:

• O método de Paulo Freire”; texto de Sônia Couto Souza Feitosa como parte da
dissertação de mestrado defendida na FE-USP (1999) intitulada: Método Paulo Freire:
princípios e práticas de uma concepção popular de educação.
• Freire, Paulo; Professora sim, tia não. Cartas a quem ousa ensinar; Editora Olho D’Água,
10ª ed., p. 27-38; 1993.

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Ensaio Essencialista 01 – Uma definição

Uma série de artigos definindo o Essencialismo como filosofia plena. O ensaio-01 é datado de agosto 2008; outros ensaios são encontrados nesta lista.
O trabalho “Est-ética” se localiza no item “livros” do menu de opções.

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Ensaio Essencialista 02 – Do estado-de-ser

Por emanar de UM sujeito pensante, a busca tende à unidade (…) divisões metafísicas não ocorrem a não ser simbolicamente.

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Ensaio Essencialista 03 – Folosofia Essencialista e Linguagem

O fluxo contextualizado de comunicação societária apresenta uma estrutura definida, genérica e peculiar, atinente, em sintonia e sincronia co-existencial com desenvolvimentos históricos, socioculturais e políticos definidos a partir de uma intuição metafísica.

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ENSAIO ESSENCIALISTA 04 – Conhecer

O problema gnoseológico e as formas de conhecer, identificando a natureza da voz interior – conceito grego de ‘daimónion’.

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FEDRO DE PLATÃO – um pronunciamento político

O discurso de Sócrates aos indecisos

1. Introdução

O Fedro é um discurso ímpar. É longo e acontece fora da cidade de Atenas, às
margens de um riacho, em um lugar campestre. Trata-se de um diálogo entre
Sócrates e um entusiasta e jovem ateniense, Fedro, por sua vez, amigo de Lísias, um
famoso doxógrafo, um sofista e fazedor de discursos (escrevendo ‘para’ em ‘função
de…’: escritor de aluguel!). O jovem Fedro, encantado com o discurso do amigo Lísias, resolve lê-lo para Sócrates, querendo compartilhar com o mestre um texto que ele achou interessantíssimo, igualmente, em buscas de uma opinião. Neste texto, lido por Fedro, Lísias elogia e favorece uma necessidade de bem gerenciar e calcular o amor, como fonte proveitosa de prazeres, evitando compromissos, enlaces e os excessos da paixão. Sócrates responde no sentido de mostrar que antes de falar de coisas óbvias, no caso, evitar os distúrbios incontidos da paixão, uma definição do assunto em pauta seria fundamental para não arriscar deixar ao lado coisas essenciais: introduzindo desta forma um longo parecer sobre a ‘arte de bem dizer’: a retórica. No decurso da caminhada ao longo de Rio Ilissos, uma lembrança,
aparentemente causal, motiva um parecer sobre os mitos. Portanto, esses três
assuntos bem definidos, amor, mito e retórica, fundamentam o diálogo, deixando
leitores, comentadores e editores incertos, imprecisos, a propósito da unidade, ou, do ‘fio discursivo’. Afinal, qual seria o justo subtítulo desse discurso: ‘do amor’, ‘da
retórica’ ou ‘da mitologia’?

2. Da adequação do diálogo

Afirmado por doxógrafos, esse discurso de Platão traz assuntos diversos que não parecem se relacionar, conferindo ao texto um aspecto coloquial e aleatório; o que
causa certa surpresa, não sendo Sócrates, tampouco Platão, dados a conversas
corriqueiras. A busca do fio diretor desse discurso, empreendida por diversos autores, gera uma plêiade de propostas criativas.

Perguntei-me se honraria o tempo dedicado, se valeria o empenho, estudar o Fedro
em busca da inteireza do sentido. Não sendo tão prudente como gostaria de ser, não
me passou pela mente a possibilidade de não encontrar o fio do discurso. Credito os
tradutores, portadores de talento e seriedade suficiente, de bem servir os textos que
traduzem assim como os leitores; apesar de algumas dúvidas relativas à tradução de
algumas palavras e expressões, referências e significados, entendo-os dotados do
gênio de bem transmitir o justo significado das frases. Ademais, credito os antigos,
pioneiros dessa venturosa epopeia filosófica, de diligência suficiente para não deixar o significado dos seus textos depender da interpretação de um ou outro vocábulo, de garantir o reconhecimento do sentido nas grandes linhas discursivas, na trama geral e circunstâncias, um pouco como nesses afrescos em que a falta de alguns traços não detrata a completude das imagens e a visão da beleza.

Veio-me à ideia que na autoridade de um diálogo milenar versando sobre a clareza
retórica e a perfeição da união amorosa, se a coordenação harmônica das partes não
se denotava de imediato, é, certamente, porque havia sido ofuscada, por prudência, ou, quiçá, exigiria para se evidenciar um pressuposto inerente à cultura de outrora,
uma ideia geral, antes presente no arco dialético, hoje subsumida em outros
entendimentos, encoberta ou desaparecida. Discursar para louvar e exemplificar a
retórica como forma inteligível, instrumento necessário da palavra que almeja chegar ao essencial, outrossim, como outro motivo do discurso, apontar o amor como élan em direção à unidade divinal, mística juntura visionada como reciprocidade perene da alma e do corpo, correlaciona em harmonia o verbum e o moto num fio discursivo que, sendo congruente, não pode se romper e que deve conotar a sabedoria justificando o que é.

Portanto, ciente das possíveis dúvidas referentes ao pleno sentido do discurso, após
supervisar o texto e conferir os três temas evocados na narrativa: o amor – nas suas
várias dimensões e facetas; o mito – como algo que se aceita com piedade, ou de que
se duvida buscando interpretações prosaicas, ou, ainda, que se coloca entre
parênteses em busca de conhecer a si mesmo; a retórica – a oratória nas suas
diretrizes e ordenamentos profundos: nada mais simples de que me perguntar, na
forma de uma charada: em que possível universo tais assuntos – o amor, o mito e a
retórica – configuram, em conjunto, os fundamentos necessários das narrativas?
Em que prática cultural encontrar, enlaçados, esses temas: o amor, as imagens
sagradas e o verbum? Ademais, a peculiaridade desse discurso, que acontece fora
das muralhas da cidade, num cenário campestre descrito por Sócrates como
belíssimo e acolhedor – com um plátano, símbolo de renovação, cuja copa recobre os visitantes de um temperado sombreado; um agnocasto florido e perfumado, símbolo da castidade; as margens refrescantes do riacho e uma fonte de águas claras – me faz rememorar as cantigas dos poetas que, em tantas odes, louvam a natureza como uma catedral: o riacho, emoldurado por margens de relva, vem ser a nave que leva a esse recanto sagrado como um altar, e, à luz do zênite, a sinfonia das cigarras verte a glória celestial nesse coro verdejante.

Na imaginação surge a imagem de um templo; nesse transporte, quase um delírio,
de imediato, Sócrates aparece como sacerdote universal advogando a causa do amor
nobre, da virtude e da conduta reta; um hierofante centrado na abóbada do mundo,
embora, vivendo no interior das muralhas dessa cidade onde, cidadão acusado de
subverter a ordem instituída, deverá ser condenado a beber cicuta.

Desde o início, o discurso é destinado a transmutar os passos cotidianos, os passeios citadinos, em epopeias e pegadas de gigantes: – “Meu caro Fedro! Para onde vais e de onde vens?” 227a. A essa abertura vertiginosa corresponde um fim encurvado e
recolhido no altar do próprio coração, onde, numa prece final, evoca-se uma
comunhão espiritual:

SÓCRATES: – Divino Pã – e vós deus outros destas paragens! Dai-me a beleza da alma, a beleza interior e fazei com que o meu exterior se harmonize com essa beleza espiritual. Que o sábio me pareça sempre rico; que eu tenha tanta riqueza quanto um homem sensato possa
suportar e empregar! Teremos mais alguma coisa a desejar? Creio que pedi o suficiente. 279c

Fedro, como se fosse um fiel frente a um sacerdote intercessor, responde a Sócrates:
FEDRO: – Pede para mim a mesma coisa, pois os amigos tudo devem ter em comum. Sócrates, quem sabe, talvez resignado com a atitude delegante do jovem, fecha o diálogo com um “vamos, então!” que ressoa no bosque como um “que assim seja!”.

Quem poderá negar que esse diálogo possui uma eloquência religiosa, como uma
homilia, uma missa paisana, pagã? Não há dúvida: trata-se de um pronunciamento
devocional, um oratório engastado num diálogo arejado e crítico, evocando uma
conduta e uma convicção, um manifesto com graves repercussões individuais e
sociais, um apelo a favor de uma purificação e renovação, uma profissão de fé! Fedro de Platão é uma exortação, um oratório, que por necessidade deve evocar o amor e a poesia mítica dentro de uma retidão discursiva, ou doutrina, incluindo perspectivas metafísicas e mitologias agregadas – nisto, configura-se a unidade teológica-política do diálogo.

3. Da polêmica

Sócrates, aprendendo-ensinando aos que ousam pensar por si mesmos, demonstra
um projeto existencial e advoga uma política cuja meta não harmoniza com o apego e a sede de possuir e imitar que impera na cidade democrática. Mas Sócrates não pode falar das tribunas onde será condenado; às medianias oportunas exortadas e
obedecidas sem exame ele prefere a dialética do provável e orienta e estimula os
aspirantes a bem dirigir seus próprios pensamentos e passos. Divertido, ele escuta e
fala com Fedro como se escuta e fala a um jovem incauto por não saber estar
evoluindo entre dos grandes atractores que condicionam uma aventura delicada.
Uma epopeia onde se é chamado a fazer seus votos, seja a favor de uma vida sub-
rogada, apegado a coisas efêmeras e mutantes, poderes ilusórios, ou, diversamente,
em prol a uma liberdade plena por reconhecer que as raízes do ser mergulham no
ilimitado e perene, além da morte e do nascimento, espaço sagrado onde as
antinomias se reúnem num todo misterioso que reabsorve as rupturas do intelecto
dogmático no grande círculo luminoso e dialógico do saber.

Como, nesses atos-de-ser antagônicos não acontecer dois ordenamentos, duas
maneiras de trilhar as rotas, metas míticas, atrações, desejos e eloquências distintas? Como não acontecer diálogos acirrados onde se conotam o compromisso dos oradores, apontando e batalhando direções opositivas? Intrínseco à natureza
variegada dos ânimos, pontos de partida similares demarcam direções e lugares de
chegada diversos, polêmicas que se explicitam nessa trina de assuntos definidos no
Fedro. Não será típico das democracias o advento de um discurso dominante e de
uma massa correspondente de partidários apoiando os demagogos, e, ilhados, uns
poucos excêntricos, visionando luzes além das brumas? Interpolado, um grupo
menor de indecisos que não discriminam, um povo seduzido que repete frases que
não compreende, encantado pelos sons e rimas das orações, indefinidos que não se
orientam, girando, presos no interior dos muros da cidade como peixes enredados.

Em meio a essa multidão, prudente e irônico, dialogando e examinando sem
exortações frontais, Sócrates constrói novas relações, discrimina, separa e ajunta
conceitos em diretrizes que ele sinaliza e que bifurcam, insuflando no ar da cidade
um renovado ânimo deliberativo, um vento que norteia. Por ser o amor ao Belo seu
assunto predileto, como se fosse um estrangeiro nessa cidade prosaica, Sócrates
parece falar desse lugar paralelo, à margem das estradas, dessa beira-rio
esplendorosa cuja geografia conhece como a nascente conhece a criatividade
transmutativa do riacho.

FEDRO: – Tu, porém ó homem excêntrico, és o homem mais extraordinário que já se viu. Com tuas palavras, dás a impressão de ser um estrangeiro que necessita de um guia, e não um
cidadão da capital. Pouco sais da cidade e parece que nunca vais para fora dos muros. 230d

Imenso, mas irônico, o homem mais sábio de Atena, simplemente responde:

SÓCRATES: – Perdão, meu ótimo amigo! Eu desejo aprender. Regiões e árvores, entretanto, nada desejam me ensinar, somente os homens da capital ensinam-me.

4. Definição metafísica e dialética decorrente

Nesse diálogo, Sócrates leva a intuir e reconhecer que um conceito filosófico
profundo, essencial, conhecido ou ignorado, delimita potenciais fundamentais, vitais, e induz uma praxe, um modo de viver correspondente; que seja introjetado sem exame, deturpado por contágio com um âmbito societário cuja multiplicidade
demográfica, cultural, ritos dominantes, convenções, intensidades políticas e
urbanísticas compelem, ou, bem examinado, escolhido com autonomia e
responsabilidade, resultante em atitudes e posicionamentos aparentando
inconformistas, excêntricos e transgressivos em relação ao que é desfocado e vulgar.

Tal eixo de perspetiva – seja aburguesado, acompanhando as expressividades e
entendimentos histórico-culturais dominantes e populares, simbolizados pela polis
democrática, murada e protegida; seja outro, seguindo em direção ao que é essencial, poético e inspirador, acompanhando as águas puras de um riacho em busca de margens bucólicas e da inspiração das musas – encontram-se esquadrinhados no
Fedro, onde se teoriza e se exemplifica esses dois programas existenciais divergentes, na tentativa de delimitar e responder ao questionamento subjacente a toda busca filosófica: – “como viver, justamente, em harmonia com o Cosmos e em meio aos seus pares?” – logo, evocando as argumentações necessárias e posicionamentos que deverão considerar as coisas da razão, do saber e da visão – retóricas, amores e mitos. Um triplo ato e apreço da razão: o entendimento justo, a visão clara e a definição precisa do que é aspirar, ou amar, conjuntamente, configuram o conteúdo e o moto fundamental desse diálogo. O que se discute e demonstra é que um posicionamento existencial é centrado ao redor de um entendimento, de uma visão e reconhecimento do que se é, explicitados no que se vê, no que se ama e no que se fala1: o que resulta em modos de ser e viver, de fazer e ter, de existir, urbi et orbi, que poderão examinar-se e reconhecer-se como sábios ou ilusórios.

O ‘grau de memória’, abertura às inspirações vindo das musas, filhas de Memosina, o reconhecimento intuitivo, sensível e qualificado, inspirado e visionário, referente à relação, amorosa, entre a alma e o mundo, ou, nos nossos termos atuais: o
reconhecimento da reciprocidade testemunhada e vivida do mistério consciência-existência, exige e comprova uma direção clara e precisa do entendimento, isto é uma retórica enraizada em perspectiva filosófica e poética profunda, que se adequa a um modo, postura e conduta apropriadas.

Talvez, uma das razões da sabedoria de Sócrates resulte em evocar a natureza
humana como totalidade criativa onde se coordenam corpo e ânimo numa
reciprocidade que não se delimita. Dessa forma, ele amplia o verbum diretor do
estado-de-ser, agregando as noções de mistério e de fenômeno num círculo infinito
cujo centro é o momento; no caso, o aprumo zenital desse lugar bucólico marcado
por esse grande plátano. Em poucas frases, o extraordinário ateniense engloba o
Cosmos no arco do discurso, do começo ao fim, dos azimutes da natureza-ser, fresta
mais misteriosa e genésica, ao termo mais atual e responsável da homo-sapiência.

Somente o que a si mesmo se move, nunca saindo de si, jamais acabará de mover-se, e é, para as demais coisas movidas, fonte e início de movimento. O início é algo que não se formou,
sendo evidente que tudo o que se forma, forma-se de um princípio. Este princípio de nada proveio, pois que se proviesse de uma outra coisa não seria princípio. Sendo o princípio coisa que não se formou, deve ser também, evidentemente, coisa que não pode ser destruída. (…) Quanto à denominação de imortal, isto é algo que não podemos exprimir de uma maneira racional. Nós conjeturamos, sem disso termos experiência alguma nem a suficiente clareza, que um ser imortal seria a combinação de uma alma e de um corpo que se unem para toda a eternidade

Entende-se que a existência, seus caminhos, como um ser vivo que se locomove, uma narrativa, um discurso, bom ou ruim, criticável e corrigível, acontece respeitando ou desrespeitando o Mythos, contidos numa visão, numa ordem, num Logos, que justifica um Ethos, bem ou mal. Bem viver exemplifica uma relação orgânica, sistêmica, uma manifestação onde as reciprocidades, justamente ponderadas, apontam uma unidade essencial, uma dialética cosmo-existencial que transcende os assuntos corriqueiros e prosaicos da cidade, e, onde: amar ou não amar o outro, qualquer que seja a forma, é amar ou não amar a si mesmo, entender e respeitar ou não a experiência existencial no que oferece de essencial.

5. Da necessidade e do valor dos mitos

Como poderia num discurso onde se destaca a justa conduta do indivíduo virtuoso,
desprezar a importância do mito, espaço poético e espantoso onde se diluem e se
unem imaginação própria e coisas celestiais? Não se faz uma retórica, justamente apontada, sem sinais míticos que são postos avançados, bandeiras dos que trilham os caminhos do Olimpo.

Ao longo do riacho que percorrem em busca de um sítio para conversar, surge uma
observação sobre a veracidade de um mito lembrado em referência a um lugar ao
longo dessas margens – o mito de Bóreas que evoca o espirito do vento, simbolizando o sopro da força criadora. Sócrates responde que se ele fosse, como alguns doutos, destituído de respeito relativo aos mitos, tentaria interpretar essas histórias em termos concretos, associá-las a coisas racionais e lógicas, a eventos históricos; o que seria, talvez, interessante, mas, como os mitos se conectam à totalidade da mitologia, exigiria um esforço impossível, improdutivo. Procurar dar verossimilhança a esses eventos usando as logicidades corriqueiras denota uma sabedoria um tanto obtusa, anacrônica, que não auxilia a apreciar a vida como convém. Ainda caminhando ao longo do riacho, Sócrates demarca em poucas frases os grandes mitos vertiginosos, de apreço universal, dessas fábulas de campanário que referem a uma plêiade de deuses – reis e rainhas ancestrais ligados a comunidades e tradições regionais – que devem ser respeitados, mas que não demandam uma inútil aplicação da inteligência dedicando-se a eles mais de que a si.

Sócrates pondera a relação do mito e da razão de uma forma sutil, demostrando
considerar a veracidade dos mitos, não sendo incréu, estando ciente de que os relatos da tradição serão certamente ofuscados em fábulas, e, que investigar a si mesmo a ponto de conhecer-se, como essência, isto é, como possível participante de um misterioso destino, é tarefa, certamente, mais importante. Os conceitos ‘apreciar’ e ‘lazer’ aprecem no discurso, evocando opções existenciais que valorizam a liberdade, a atividade desinteressada, criativa e livre de metas prosaicas. Epitomando a visão mais condigna, no lugar e tempo em que vive, de imediato, ele mira o mistério perenal e agrega o mito a si mesmo abrindo o domínio interior e privado à mais alta intuição. Diz ele:

Ainda não cheguei a ser capaz, como recomenda a inscrição délfica, de conhecer a mim próprio. Parece-me ridículo, pois, não possuindo eu ainda esse conhecimento, que me ponha
a examinar coisas que não me dizem respeito. Não me interessam essas fábulas e conformome, nesse sentido, com a tradição. Não são as fábulas, que investigo: é a mim mesmo. Talvez eu seja um animal muito mais extravagante e cheio de orgulho de que Tífon; ou, porventura, um animal mais pacífico e menos complicado, cuja natureza talvez participe de um misterioso
e divino destino, mas que não se enche com os fumos do orgulho…

O sábio não desdenha as intuições e histórias mais notórias que sombreiam e
enriquecem as aporias rigorosas de uma orla utópica, como franges hibridas, musgos nascidos das relações poéticas entre as clarezas da razão e as sombras do incógnito: lugares onde se pode projetar esses lances hipotéticos da alma nas profundezas dos potenciais.

Sócrates se envolve em diálogos surpreendentes e enriquecedores ao apropriar-se
dos não saberes dos seus interlocutórios – “ainda não sei”, “ainda não cheguei” –
expressando-os na primeira voz em contiguidade e sintonia com o seu conhecimento terminativo da insuperabilidade do mistério essencial; um ensino e saber singular referido pela pitonisa como: – “ele sabe que nada sabe”.

6. Retidão e retórica

No Fedro de Platão, examina-se as qualidades do amor, dos mitos e a arte da retórica, discute-se o ato diretor do bem querer; a conduta que convém frente ao exercício do desejo; a arte de bem se conduzir frente à necessidade de agir em busca de satisfação. Sendo ensejo geral a busca da felicidade, configura-se uma praxe de magnitude fundamental, tanto no que refere a um indivíduo quanto a todos os que pertencem à comunidade, à polis. A felicidade de um indivíduo não pode ser a infelicidade de outro por ser a amizade e o respeito, a paz e a harmonia, componentes necessários do estado feliz; o ensejo, sendo geral, determina um destino de consequência societária, ou seja, um programa, uma política em busca do bem comum.

Tanto quanto não se separa a inteligência dos seus agregados intrínsecos, a razão, a
capacidade de apreciar o belo e a visão, nada se compreende (e empreende) sem
motivações e desejos. Élans diversos abrem um leque de opções, de simples gostares voláteis a amores intensos cuja natureza apega ou liberta na dependência dos discursos que se configuram examinando e dialogando. Como avaliar a conduta de um indivíduo, ou de um povo, com retidão sem comtemplar, ao menos, essa trina de aspetos fundamentais: as apreciações e gostos que se cultivam; a racionalidade e congruência das buscas e discursos; junto à visão que norteia o destino e os fins – isto é aquele que legisla, ajuíza e guia? Nestes termos, seria possível examinar uma conduta fundamental sem falar, conjuntamente: da expressão do desejo, do amor; da razão que existe dita nas prosas bem ordenadas, e, das imagens e paradigmas que norteiam, dos mitos e das visões, símbolos e significados que conectam o efêmero à trama que perdura?

Não será essa metáfora da carruagem uma imagem concisa desse condutor que dirige o discurso de acordo com as visões, razões e apreciações, tentando equilibrar o veículo entre dois atratores opositivos? Não será essa imagem da retórica como um animal ou corcel de boa constituição, com cabeça, tronco e membros, uma excelente representação da vivacidade do orador quando opera na primeira voz, enuncia construções e definições bem norteadas, apontando e marcando o rumo do amor?

Animado de vida e luz intensa, imbuído de entusiasmo e de grandes virtudes,
Sócrates não lança ao ar uma palavra, sequer, um signo, que não seja uma seta
apontando a meta. Uma supervisão desse diálogo, como se contextualiza e acontece
nas beiras do Rio Ilisso, ilustra e conota o posicionamento político exemplificado e
justificado por Sócrates e reportado por Platão. Os amigos se dirigem para fora de
Atnena, cidade cerceada de muros, conquistada por plutocratas servidos por
demagogos que reduzem a arte de amar a uma praxe econômica e prosaica em busca de máximo benefício e mínimo desgaste, exaltando o amor aos bens, ao conforto, fama e poder, ao detrimento do amor ao que é Belo e verdadeiro. O riacho que Sócrates e Fedro margeiam contorna a cidade em direção a um prado inspirador, lugar dedicado a Achelous, rio-deus da abundância, simbolizando um processo purificatório em busca da riqueza dos sábios. Mas Fedro traz escondido embaixo do braço esquerdo um discurso leviano que ele imagina digno de nota, edificante. Inicialmente, prudente, às vezes irônico e ambíguo, conhecedor dos embates e da corrupção reinante, mas vivendo na comunidade, Sócrates, atendendo a vontade do amigo empenhado em memorizar essa peça de oratória que ele julga magnifica, não
desconstrói o escrito de imediato, mas clareia com luz baixa, velada, aquele que pode merecer alguns comentários, sem criticar com rigor o soberano demo citadino
manifesto no texto de Lísias. Logo, no cenário, uma via conectando a cidade murada e o campo, no enredo, discutindo o bom senso e significado do desejo, aparecem, fortemente esboçados, dois argumentos: um discurso elevado e profundo, exigindo sabedoria, e, uma vereda inferior e vulgar, rabiscada num discurso insensato. Sócrates, o dialético, encarna o sábio, e, Lísias, o logógrafo demagogo, o arauto defensor de uma política de posses e poderes, mas destituída de amor. As condutas, princípios e consequências e das duas vias, são elencados no diálogo, deixando a cada um a responsabilidade de escolher e seguir um ou outro posicionamento.

Na resposta inicial, envergonhado, a cabeça coberta simbolizando estar proferindo
um parecer a meio mastro, de pouca inspiração, atendendo o pedido insistente do
amigo, Sócrates, acompanha os arrazoamentos de Lísias, resgata o senso comum
contido neste discurso que se limita a criticar a paixão insensata e elogiar as praxes
da razão, pretendendo abordar a temática do amor, de Eros.

SÓCRATES: – Como? Será preciso que o discurso seja elogiado por mim e por ti? Temos de afirmar também que seu autor disse tudo que era necessário, que cada expressão é clara, bem
elaborada e compreensível? Seja, farei isso por amizade para contigo, se bem que eu, na minha incompetência, não tenha notado tal coisa.

Uma vez satisfeito a contente o desafio de Fedro, tendo respondido e enfatizado os
conceitos sobre o amor, ou Eros, ditos e conotados no discurso de Lísias:

“(…) Quando o desejo, que não é dirigido pela razão, esmaga em nossa alma o desejo do bem e se dirige exclusivamente para o prazer que a beleza promete, e quando ele se lança, com toda a força que os desejos intemperantes possuem, o seu poder é irresistível. Esta força todopoderosa, irresistível, chama-se Eros ou Amor”.

Irônico, Sócrates se levanta com a intenção de fazer o caminho de volta para a cidade.
Fedro o interpela sentindo que não havia dito tudo sobre o tema; como se caindo em
si, recebendo de repente a intuição do seu daimónion, Sócrates esclarece que, com
efeito, como havia falado, apenas elogiando a prudência, condenando o erotismo
apaixonado, não esgotava de fato a temática evocada por Eros, ou Amor:

SÓCRATES: – Trouxeste-me um discurso horrível, (…) em certo sentido, ímpio. Pode haver coisa mais horrível? (…) Já não crês que Eros é filho de Afrodite, e como tal é deus? 242d
FEDRO: – Sem dúvida. É o que diz a tradição.
SÓCRATES: – Mas tal fato não foi mencionado (…). Ora, se Eros é, como de fato é, um deus ou um ser divino, não poderá ser mau. (…) Esses discursos pecaram contra Eros. Além disso, a
sua tolice é cômica (…) enchem-se de importância porque conseguiram iludir alguns ingênuos e ganhar os seus aplausos. (…) Antes que venha a sofrer pela ofensa feita a Eros tentarei fazer a minha palinódia, mas com a cabeça nua e não, como antes, embuçada. (…) não foi verídico este discurso ao dizer que, apesar de se ter um amante, é prudente conceder mais favores ao não apaixonado, porque aquele é louco, enquanto que este possui discernimento. Isto seria verdade se a loucura fosse apenas um mal; mas, na verdade, porém, obtemos grandes bens de uma loucura inspirada pelos deuses.

É quando o sábio desenvolve a contente o seu argumento: o amor verdadeiro,
entusiasta, deve ser orientado pela filosofia. O que justifica uma vida lucida é a
prática do amor, que se exercita plenamente quando o estado-de-ser se orienta
através do uso atento da palavra, ou retórica, que deve auxiliar a discernir e definir
os objetos enunciados nos diálogos, diferenciar o justo e virtuoso do que não é, ser
instrumento e veículo dessa busca. Sócrates encarna o filósofo exercitando um dever: critica e corrige a temática, esclarece os conceitos, as palavras diretoras e os
pensamentos, para que os que queiram escutar e apreender possam-se orientar em
direção ao justo e verdadeiro, reconquistando um nobre destino, individual e
comunitário, em prol a uma renovada dimensão política, ou civítica, que introduz e
aponta os caminhos da harmonia e do Belo.

7. Conotações decorrentes

Quem sabe discursar é responsável, dotado de uma inteligência suficiente para
compreender e reconhecer o que diz, orientar o seu discurso, reconhecer a que causa está servindo, se é verdadeira e virtuosa, ou não. Quem dita um discurso sobre o amor e não encaminha o ouvinte ao Belo e sublime, mas a um rateio de bens efêmeros, poderes e prazeres imprudentes, sabe em prol a quem trabalha e por quais razões, logo, não se compara em virtude, tampouco em poética e retórica, a quem exercita um diálogo, ou faz um discurso, inversamente direcionado e tenta guiar seus ouvintes na busca das grandes realidades existenciais, da verdade e da boa vida, bem examinadas.

Os que na cidade discursam em favor de apoio e aclamação, não admiram e/ou
abominam os discursos por sua capacidade de veicular a verdade ou a mentira, mas
por reconhecerem o grande valor da oratória soberbosa em aumentar, quiçá diminuir o poder de quem fala; poder consagrado na aprovação populista que se aduba e exacerba em lisonjas, elogios e críticas bem distribuídos.

Se os estadistas receiam fazer discursos não é por temerem o veredicto da
posteridade, serem considerados sofistas, demagogos ou logógrafos a serviços de
interesses vulgares e prosaicos, mas, sim, por recearem discursar sem a astúcia e
demagogia suficientes para garantir a aprovação das massas, votos para aumentar
seus poderes e haveres. Receiam não serem capazes de encher o povo de esperança
para que seus gritos de aprovação alicercem a sua sede de conquistar mais medíocres poderes: em breve, receiam não serem dotados da astúcia necessária para produzir discursos sedutores e vistosos, parecendo virtuosos e profundos, mas avolumando o mercado da vulgaridade e mediocridade política, ofuscando a verdade e o essencial.

Quando os oradores envolvidos nesses afazeres e lutas se criticam, acusando-se de
meros repetidores de discursos sem substância, não apontam os abusos e as
deturpações corriqueiras das palavras midiatizadas afastadas da verdade e alugadas
a favor de causas escusas, mas, através dessas detratações e elogios públicos
negociam alianças e ataques de acordo com uma praxe competitiva e sovina cuja
meta é vencer e conquistar, ganhar aprovação e poder: fama. Cercados de aliados
eloquentes e populistas, como ovelhas em torno de uma mina de sal, os governantes
mais soberbos amam proferir discursos, sabem que as massas adoram os que
demonstram ascendência e poder, bajulados por um séquito de seguidores satisfeitos, catalisam promessas de prosperidade para a maioria dos votantes.

Será que nesses enredos típicos das cidades dirigidas por plutocratas e tiranos
carentes de filosofia, será necessário examinar cada um dos discursos para decidir se é bom ou mau? Ou, simplesmente, perceber o contexto em que são ditos: com que intenções e propósitos são elaborados e para quem servem? Sócrates ensina a Fedro e o exorta a reconhecer que não é necessário examinar cada frase e estilo de cada discurso para saber o que valem, basta não se deixar levar pelo “canto das sereias”, reconhecer a fonte inspiradora das falas, para onde se dirigem e a favor de que ou de quem – a retórica. O mito das cigarras exorta que não se deve esmorecer ao meio do dia, deixar de aproveitar a hora e o saber disponíveis, permitir o fastio e necessidades prosaicas impedirem ou atrasarem o exame lúcido dos assuntos dignos de nota à luz da filosofia mais inspirada e mais alta. Desprezar e não entender o sentido dos mitos, confundi-los com fatos históricos distorcidos, arranca a sabedoria do mundo, cega. Evidente, bem sabem os artistas, poetas e filósofos dignos: o sentido profundo da existência só pode ser intuído na contemplação intuitiva das formas profundas, ilustradas e adaptadas ao entendimento dos homens e das suas culturas – os mitos. Na retórica vulgar, de vocação demagoga, se escreve e se fala pactuando em conformidade com a força política das opiniões, não de acordo com o saber genuíno e autêntico.

As escrituras e falas que se condenam são as que mistificam os leitores e ouvintes
elevando à esfera mítica os feitos dos demagogos e tiranos entronados; é a oratória que se usa para desacreditar a graciosidade suprema do entusiasmo amoroso, galgar poder e recursos para jogar lama e arreia nas causas essenciais e ofuscar os que sabem, fazer as demagogias parecerem argumentos necessários. Acusa-se a escrita sem inspiração, que encobre as verdades que se reconhecem ao conversar com crianças, intuindo e admirando a beleza do dia e das flores, simplesmente, sabendo escutar o canto das cigarras – o Mythos leva Eros na retórica do sábio.

8. Deixando as margens do Rio Ilisso

Sócrates versus Lísias: duas vias, duas perspectivas, modos e intensidade de viver
contrastantes: o Fedro define uma encruzilhada, discute duas orientações, cujos
assentamentos na comunidade demonstram as políticas que acontecem e levam a
uma forma existencial reta, verdadeira, de acordo com o fluxo vital, ou a uma outra
que é falsa ou contrária.

O diálogo socrático, filosófico, é um ato e uma via, um movimento efetivo que amplia e purifica a lucidez dos dialogantes atentos até à realização do estado-de-ser como verdade, amor e união. Assim sendo, nas circunstâncias políticas que levariam o orador mestre à condenação e morte, sentenciado por desviar os jovens das obediências e cultos da cidade, o diálogo se carateriza com um ato político por
afirmar ser o poder de exercer a virtude e bom governo assentado no coração do
sábio e não do tirano: ser rico é ser sábio. O significado unitário do discurso se
carateriza e se afirma como um ato político em defesa do governo dos sábios; um
diálogo prudente, mas, nessas circunstâncias democráticas, transgressor.

A virtude fundamental atribuída ao mistério de existir, manifesta uma intuição
metafísica, um eixo de perspectiva e coordenadas decorrentes, configurando um
posicionamento existencial – e civilizatório – fundamental, logo, uma política,
instituidora de trajetórias, experiências, sentimentos e narrativas que correspondem aos valores elegidos. Ser de si consciente demanda a realização da sua própria natureza: uma apreciação verdadeira deve explicitar essa relação recíproca e concordante do ‘ser’ e da sua ‘natureza’, desvelando potenciais de harmonia e vida digna. À luz de uma razão simples e desembraçada, o encontro com o Belo é natural, previsto na bondade e no valor que o vivente afirma: para o sábio, o exercício da virtude não é facultativo ou ocasional, é uma necessidade congruente à natureza e potenciais do estado-de-ser.

9. Considerações teológicas e políticas

O fenômeno existencial não se contextualiza como ‘Ser’ soberbo, dominador, existe
como estado-de-ser, igualmente, ser-e-estado e ser-em-estado, identidade unitária
e paradoxal que busca realizar e afirmar sem desvios sua forma original; e, por
imanar da essência, quando possível, supera o debate determinístico em iniciações
vanguardistas, intuições estéticas e éticas. A configuração existencial condiciona um
dever sem impor, uma conduta sem obrigar: um ordenamento consagrado na
apreciação benevolente e sábia do dado-a-ser, consequente e virtuosa expressão
ética e civítica.

É ilusório e vão, levado por idealidades ou enquadramentos culturais, procurar a
essência em arquiteturas subjetivistas que negam a natureza do estado-de-ser, ou
que desviam da coexistência. Projetar o motivo, enredo e eticidade da própria
história em campo alheio e sobre-humano, imaginar resoluções contidas em teorias
que não sintonizam com o estado-vital que se experiencia, caracteriza um desvio
excêntrico. Neste deslocamento metafísico-existencial enraíza a quase totalidade da
patologia. Uma resolução, que não seja apenas uma relaxação compensadora,
implica numa intuição filosófica, inspiração decantada em generalizações sóbrias e
precisas, abstrações e conexões estéticas que reconciliam a harmonia ser-e-estado
desvelando uma unicidade poética e paradoxal.

Frente a uma intuição desfocada relativa à identidade e origem do estado-de-ser,
pretender compensar um possível sentimento ambíguo, talvez amedrontado, por
um escapismo consolador inscrito em afirmações opinativas, políticas e educações
dominadoras, avilta mais ainda a razão e a liberdade. A história e historicidade dos
indivíduos demonstram a patologia e amplidão dos sofrimentos decorrentes desses
desvairos. Não reconhecer a sua afiliação ao Belo, não aceitar o que se é, como se
manifesta, força vital cocriadora, vontade codeterminante do destino, infirma e
desresponsabiliza do ponto de vista estético e ético, transformando potenciais
proativos de veracidade e adequação em desinteligência, minusvalia e padecimentos.

Uma nobre realização ética e civítica exige o reconhecimento da integração cosmoexistencial: isto é, a) um fundamento visionário, mítico, senão suficiente, frente à necessidade das outras virtudes: b) afirmação proativa e dessa unicidade, amor fiel, e, c) retidão teórica, retórica justa. Uma integração que preza e valoriza a adequação do estado-de-ser se elabora e amadurece no cultivo da harmonia. Nesse fenômeno, os potenciais de realização, como processos progressivos e evolutivos, gravitam em torno das relações que se estabelecem e discriminam entre si e o que é outro. Relações sintônicas facilitam esse processo e entendimento conjuntivos, relações opositivas o dificultam, evocando desvios educacionais e políticos.

Pertence aos potenciais do estado-de-ser adquirir uma ciência progressiva e bem
situada de si, Ethos: o que implica o judicioso cultivo da razão, circunstância que
leva a reconhecer o dado-a-ser como evento onde colapsam identidade e a origem
no fenômeno autopoiético em si – Logos e Mythos. Generalizando maximamente: a
impossibilidade de estabelecer uma distinção ontológica clara entre o que é ‘simesmo/interior-em-si’, e o que é ‘outro/coisa-em-si’, implica uma situação
cognitiva-existencial paradoxal, um fenômeno e aporia que tendem a se agigantar e
universalizar em inspirações sensíveis e vanguardistas, intuições estéticas,
configurando-se uma relação/realização mítica.

Uma intuição mítica-metafísica, de alguma forma, consagra e regimenta essa tensão
existencial em duas possíveis orientações: a) uma conjunção integradora e essencial, mística, cujo significado e valorização operam ao alcance do estado-de-ser, no interior-em-si, ou: b) uma ruptura que degrada essa relação confluente, projeta a essência num ignoto hipotético, deixando o estado-de-ser em posição de exclusão e menoridade em referência ao significado, dignidade, ou mérito da sua natureza profunda. A intuição metafísica fundamental decorre de uma dupla evidenciação: a) da absorção mimética e irrefletida do padrão cultural, formalizado e inscrito em sentimentos, mitos, retórica, ritos e etiquetas, urbanidades: em teologia-política; e, b): da revisão filosófica, tributária de uma busca, de uma educação: uma pedagogia, e política educacional, revela ser decisória para uma edificação consciente e elevada apreensão do estado-de-ser que se experiencia.

Vigemos como atualidade radical, desvelando uma presença criativa, fundamento
de todas as noções, abraçando o conceito de absoluto e aquele a que se refere;
imersos em estruturas psicofísicas, inefabilidade universal, intuições, perspectivas e
coordenadas metafísicas, mitologias e sistemas teóricos, evoluímos como estado-deser numa cumplicidade cosmo-existencial gerundial. A metafísica e mitologia
unitária fomentam uma comunhão proativa e responsável em todos os níveis,
permitindo reconhecer a integração fundamental da essência à esfera existencial.
Desperto nestes mistérios, o indivíduo vanguardista reconhece e elabora narrativas que elevam a manifestação existencial a uma expressão imediata de princípios
sempiternos: intuições arquetípicas, alegorias universais, visões, concentrando o
poder de saudar e celebrar no cotidiano o que mais nobremente significa: a
culminância metafísica destilada e espiritualizada à luz da razão natural.

Intui-se a possibilidade de uma realização, reforçando as boas providências
essenciais num círculo proativo de lucidezes, conectando em ressonância todas as
facetas do estado-de-ser: coordenadas que dignificam a existência, celebrando o
eixo de perspectiva metafísica de maior anuência e respeito, mais genuíno e sóbrio.
Um projeto-de-ser que irradia como um sol, uma mandala, cujo centro enraíza lá
onde imagens e metáforas fascinam e comovem, contemplando e experienciando o
real sem deixar hipóteses, receios ou preconceitos, tradições que sub-rogam o
oratório, turvarem a beleza das evidências que se delimitam nos intercâmbios da
natureza respeitada, da cultura desafiada e do melhor convívio: uma dinâmica
integrada, burilando sensório e imaginação nos apuros mais construtivos da
percepção e semântica.

A inspiração resultante da vivência dessa unicidade paradoxal, gera um espanto e
admiração jubilosa, que, por glorificar e potencializar o estado-de-ser, reforça a
intuição metafísica diretora, fornecendo uma confirmação vital da adequação e
retidão do entendimento filosófico. Estabelece-se um âmbito de certeza que,
embora, não assentado em experimentações empíricas, tampouco em dedução
lógicas rigorosas, predicativas, afirma, com uma razão plena e qualificada, intuitiva,
uma infinita inteligibilidade universal, ou consciência cósmica.

Sendo o princípio coisa que não se formou, deve ser também, evidentemente, coisa que não pode ser destruída. 245d-e (…) Nós conjeturamos, sem disso termos experiência alguma nem
a suficiente clareza, que um ser imortal seria a combinação de uma alma e de um corpo que se unem para toda a eternidade.

A dedicação amorosa do guia, focando a sua atenção no indivíduo, evocando a
intuição metafísica e retórica que condizem, explicitando e exemplificando as
atitudes decorrentes, realiza um posicionamento metafísico em conjunção com um
ato pedagógico: o que exemplifica uma teologia-política que ao integrar seus
métodos aos seus objetivos e propósitos, engrandece a humanidade, consagrando
autonomia e liberdade em prol a um exercício existencial visionário, belo e razoável.
Tal abordagem, desprovida de ordenamentos normativos constrangedores, só poderá operar do singular ao universal, numa atuação personalizada que se
reconstrói e reformula, continuadamente, nas expressões sábias e multíplices dos
que participam da sempiterna reatualização cultural e afirmação do momento,
kairos.

Um esclarecimento eficiente se realiza e se atualiza em cada indivíduo, não encontra as suas justificativas circunscritas e quantificadas em apreciações locadas em parâmetros históricos-cronológicos, mas afirma-se na perduração e nos ecos dos ensinos sábios, especificamente referenciados, ou não. Entender a dimensão
filosófica profunda e política de Sócrates e outros mestres de sabedoria, exige
alguns reconhecimentos consequentes e positivos: a) a realização mística é uma
consagração individual; b) que se burila e se afirma por intermédio de uma
educação singular e particularizada; c) que o ato político-pedagógico que condiz
com essa busca e realização deve aspirar uma reforma continua e atualizada do
entendimento; d) ser exercitado ao longo de um eixo metodológico variável,
pontuado entre os polos conservador e renovador dos posicionamentos e decursos
políticos; e) de acordo com as necessidades dialógicas e contextualizações
manifestas nesse momento vivaz que eternamente perdura, d) transmutando e
renovando a fluidez e inteligibilidade do estado-de-ser: aquele que é eternamente
vivaz e em fluxo não se acha em rastros, não se loca em época.

Portanto, o programa político-teológico socrático se exercita: a) através de uma
transmissão cultural criativa, diáspora continuada e transpessoal; b) incorporada
pela natureza humana que se renova em atos pro-criativos, nascimentos e mortes.
Comprova-se a elevada efetividade do programa constatando que 2400 anos após a
sua instalação, coordenados nestes termos, os desafios lançados continuam
exercitando os seus efeitos, ressurgindo como uma fênix, envolvendo milhões de
indivíduos ao redor do globo.

10. Da alegoria

O Fedro, além de diálogo é alegoria: estamos todos caminhando ao longo de um rio
com duas margens e duas direções. Uma leva a esse lugar natural e campestre onde
existe uma fonte e se escuta o canto das cigarras; outro leva a essa cidade sitiada,
tomada por plutocratas, onde os discursos são negociados. Na dependência do que se sente, vê, escuta e diz – Eros, Mythos e Logos – o estado-de-ser dirige-se para
uma, ou, outra direção – via socrática ou via lisiástica. Terá essa viagem um fim?
Boa caminhada!

 

CIVÍTICA & POLÍTICA – Do Homo oeconomicus ao Homo sapiens sapiens

Os princípios metafísicos trafegam do plano das ideias aos planos concretos da vida privada e pública, moldando a política societária cuja estrutura ideológica reforça as opções iniciais num círculo retroativo. O eixo de perspetiva cosmo-existencial é demonstrado como a opção civilizatória geradora de uma estrutura comunitária dialógica, de um ambiente civítico benevolente, eco-humanista, e, de uma economia de mercado embasada em moedas participativas e lastradas; enquanto a cosmovisão dualista, é apontada como causadora da estrutura atual, hierarquista, autoritária, representativa, sustentáculo circular e fundante de um sistema societário superestratificado, de uma economia deturpada através de um sistema monetário monopolista e fiduciário, isto é, sem lastro, corrupto e corruptor.

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EST-ÉTICA – Ensaio filosófico

A palavra ética procede do grego ethos que significava morada, lugar em que vivemos, posteriormente, passou a significar o caráter e modo de ser que uma pessoa. O termo “estético”, derivado do grego “aisthesis”, “aistheton” refere-se à percepção pelos sentidos, ou conhecimento sensível-sensorial: o conhecimento primeiro, básico, muitas vezes relegado à categoria de “gnoseologia inferior”.

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ETICA-E-ESTETICA – revisado 2017

LIVROS PUBLICADOS

Livros publicados até dezembro 2011

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